Brasil no Oscar: Animação tenta ganhar primeira estatueta do país

O brasileiro 'O menino e o mundo' enfrenta hoje o favorito 'Divertida mente' no Oscar

Foto: Divulgação

Hoje é o dia em que o menino enfrenta o mundo hollywoodiano. O longa-metragem O menino e o mundo, dirigido pelo brasileiro Alê Abreu, disputa o Oscar de melhor filme de animação. O vencedor será conhecido hoje. O menino de Alê não tem a força comercial do favorito, Divertida mente, de Pete Docter e Ronnie Del Carmen. Mas chega ao Dolby Theatre, em Los Angeles, com importante papel já cumprido: chamou a atenção de uma indústria padronizada, mas que busca estéticas diferentes.

O brasileiro diz que não esperava estar no Oscar. Uma vez lá, nunca deixou de confiar na força de seu menino. A vitória na categoria independente do Annie Awards – o Oscar da animação – confirmou sua relevância. “Realmente não sei o que dizer. É um momento importante para a animação brasileira”, discursou, com o troféu em mãos. É essa a grande certeza.

“Este momento já está meio repetitivo”, avalia, em entrevista por telefone ao Estado de Minas. A voz desaparece de vez em quando. Segundo ele, um sinal do cansaço de quem anda falando muito. “Acho que a última coisa nova, algo que rememorei sobre o processo do filme foi a música do Milton (Nascimento). Foi o começo de tudo, e outro dia fui ouvir novamente”, conta.
Foi graças a Canto latino, canção de Milton Nascimento e Ruy Guerra, que o menino nasceu. Diz a letra: “Pra viver nesse chão duro/ Tem de dar fora o fulano/ Apodrecer o maduro/ Pois esse canto latino/ Canto pra americano/ E se morre vai menino”. Desses versos surgiu a vontade de fazer um filme sobre a canção de protesto na América Latina. O desejo se traduziu em um simpático – mas melancólico – personagem sem medo de desbravar.

Ao lado do colombiano O abraço da serpente, de Ciro Guerra, Alê Abreu compõe a chamada cota sul-americana do Oscar. Para ele, estar lá é apenas uma bem-vinda e paradoxal consequência. A ousadia temática e de linguagem de O menino e o mundo faz dele o “diferentão” entre os cinco que concorrem hoje à estatueta de melhor animação. “Muito mais que representar a América Latina, é um outro tipo de animação. Fico feliz por ser um filme que signifique tudo isso”, afirma.

Significado

Alê Abreu tinha 12 anos quando fez o primeiro curso na área de animação. Nunca mais parou. Foi estagiário de Mauricio de Sousa e cursou publicidade e propaganda. Conhece os mecanismos da indústria do entretenimento. Escolheu ser independente sem virar as costas para o mercado.

“Não tenho nada contra (o mercado). Nunca pensei muito nisso, para ser sincero”, confessa. Alê diz que, quando começa a fazer um filme, deixa que a obra imponha suas necessidades. Em O menino e o mundo, misturou técnicas, subverteu nosso idioma, criticou o capitalismo e até mesmo a indústria que o Oscar representa. Nada foi para a tela gratuitamente.
Ele admite que as imagens coloridas e lúdicas de O menino e o mundo escondem muitos segredos. Por exemplo, a cidade grande que o menino visita não é São Paulo ou Rio de Janeiro nem Tóquio ou Nova York. É o desenho do gráfico da distribuição de renda nos países sul-americanos feito por Darcy Ribeiro no livro O povo brasileiro. “Aquela cidade é exatamente o formato do gráfico. Coloquei no computador e desenhei em cima”, revela.

O cineasta considera simbólico o conjunto de indicados a melhor longa de animação neste ano. Além de O menino e o mundo, Anomalisa (2014), de Charlie Kaufman, e o japonês Quando estou com Marnie (2014) são sinais de que os próprios profissionais estão querendo ver outras coisas. Para Abreu, uma das grandes armadilhas de seu ofício é tentar corresponder ao desejo do outro. “Não faz o menor sentido. Tem que fazer a coisa com sinceridade. O que dá vontade.”

Aos 44 anos, o diretor é hoje uma referência entre os animadores brasileiros. Está seguro de que ser um cineasta de animação no Brasil não é repetir estéticas de produções já reconhecidas internacionalmente. É encontrar o próprio caminho. Claro que não é simples.

O diretor brasileiro Alê Abreu prepara novo longa, com trama em torno do conflito árabe-israelense. (Foto: Reprodução Internet)
O diretor brasileiro Alê Abreu prepara novo longa, com trama em torno do conflito árabe-israelense. (Foto: Reprodução Internet)

Até agora, Abreu dirigiu, escreveu e produziu os próprios projetos. Se há um desejo dele com a projeção alcançada no Oscar, é poder abrir mão de ser também o produtor. “Não dá para seguir sem ter alguém olhando por mim. Não consigo me desdobrar mais”, diz. Na verdade, ele não quer.

Sabendo do próprio limite, o diretor partiu em busca de parceiros. Durante um jantar em São Paulo, depois de um contato no festival de Annecy, na França, reconheceu nos também diretores Luiz Bolognesi e Laís Bodansky possíveis parceiros. Agora a Buriti Filmes (do casal) e a Filme de Papel (de Abreu) são associadas. Dois novos projetos estão no forno.

Viajantes do bosque encantado é a nova menina dos olhos de Alê Abreu. O conflito entre Palestina e Israel é inspiração para uma história sobre amizade. Duas criaturas de países inimigos são obrigadas a entrar em um acordo para o bem comum. O roteiro do filme está pronto. Entra agora na fase do esboço de animação, chamada animatic. Imortais, com roteiro de Bolognesi, encontra-se em fase mais embrionária.

E já que a música funciona para Alê Abreu como uma bússola, Viajantes tem tudo para ter um quê psicodélico. “Estou recuperando esse estilo dos anos 70, o rock psicodélico. Está saindo uma coisa bem diferente.”

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Redação
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