Caixa suspende linha pró-cotista de crédito imobiliário

Líder em crédito imobiliário no Brasil, a Caixa suspendeu, por tempo indeterminado, os financiamentos habitacionais pela linha pró-cotista, destinada principalmente à classe média. O motivo é o esgotamento dos recursos autorizados pelo Conselho Curador do FGTS. Sem a pró-cotista, que tem um dos juros mais baixos do mercado (8,61% ao ano), perdendo apenas para o Minha Casa, Minha Vida, muita gente pode ter que adiar o sonho da casa própria ou vai precisar abrir ainda mais a carteira para realizá-lo.

Segundo uma fonte ligada à instituição, que não quis se identificar, os recursos ainda serão liberados para quem deu entrada nos papéis até o dia 9 de junho e assinar o contrato até 31 de julho. A Caixa não assegura que o empréstimo para quem já iniciou o processo será realizado.

Apesar de confirmar a paralisação, a assessoria de imprensa da instituição financeira nega que a liberação dos recursos das contas inativas do Fundo de Garantia tenham ligação com a interrupção dos empréstimos pela linha pró-cotista, que usa, justamente, recursos do FGTS. “A Caixa Econômica Federal informa que estão suspensas as contratações de novas operações da linha de crédito pró-cotista – recursos FGTS, em razão do comprometimento total do orçamento disponibilizado pelo Conselho Curador do FGTS para o exercício de 2017”, diz nota enviada pelo banco.

Saída
Sem a pró-cotista, a solução é recorrer à linha SBPE. As exigências para aderir ao financiamento são as mesmas. A diferença são os juros. Enquanto na primeira o interessado paga 8,61% ao ano, na segunda a taxa é de 10,49% anualmente.

O 1,88 ponto percentual que distancia as duas linhas de crédito parece pouco, mas pode mudar completamente os planos de quem decidiu investir na casa própria.

Renda familiar
Segundo levantamento realizado pelo presidente da Associação dos Mutuários e Moradores de Minas Gerais (AMMMG), Sílvio Saldanha, a renda familiar mínima necessária para pegar empréstimo de R$ 200 mil salta de R$ 6,5 mil para R$ 7,5 mil, quando o tomador de empréstimo adere ao SBPE, ao invés da linha pró-cotista.

“É importante lembrar que a Caixa financia 80% do imóvel. Ou seja, além da renda mais alta, o comprador tem que dar uma boa entrada. Com a interrupção da linha pró-cotista, muitas famílias provavelmente não terão recursos para optar pela SBPE. Isso acontece porque a parcela do empréstimo não pode ultrapassar 30% da renda. E o banco não aprova mesmo”, afirma o especialista.

Parcela
Ao aderir à linha de financiamento com juros mais altos as parcelas também encarecem. Com 8,61% ao ano, o interessado em pegar R$ 200 mil de empréstimo a serem quitados em 420 meses, ou 35 anos, deve pagar ao banco R$ 1.911 ao mês. Quando a taxa salta para 10,49%, o valor a ser pago mensalmente sobe para R$ 2.224.

Os R$ 313 podem até caber no bolso, mas, ao final do contrato eles aumentam a dívida em R$ 131.460. Ou seja, o acréscimo superior a 50% do montante financiado.

Na planta
Saldanha explica que a suspensão da linha pró-cotista também tem forte impacto nos planos de quem comprou imóvel na planta, pensando em acertar o financiamento com a Caixa no futuro.

No contrato de compra, é comum que as empresas insiram uma cláusula prevendo que o comprador não consiga o financiamento. Neste caso, ele paga, por mês, multa de 1% sobre o saldo devedor, mais o IGP-M, até que consiga o empréstimo.

O problema é que, com o aumento dos juros ao passar da linha pró-cotista para a SBPE, muitas vezes a renda não é suficiente para quitar a parcela, e o banco não aprova o financiamento.

Em alguns casos, ele ressalta que os juros podem somar 25% ao ano. Isso significa que em quatro anos o comprador deverá o dobro da dívida inicial.
Para especialistas, interrupção do crédito pode comprometer retomada do setor

A suspensão da linha de crédito pró-cotista joga uma pá de cal sobre os planos de recuperação da construção civil. Sem dinheiro na praça, é pouco provável que consumidores assumam compromissos financeiros maiores do que os estimados anteriormente.

Se a Caixa não retomar a linha pró-cotista no curto prazo, haverá uma reação em cadeia no setor, conforme afirma o coordenador do curso de Economia do Ibmec, Mácio Salvato. “As pessoas não vão comprar e as obras que estão em curso serão paralisadas. O setor, que é um dos que mais emprega no país, precisará demitir ainda mais”, lamenta.

Na avaliação do presidente da Associação dos Mutuários e Moradores de Minas Gerais (AMMMG), Sílvio Saldanha, sem a linha pró-cotista corre-se o risco de ser necessário reduzir os custos para vender os imóveis projetados. “E mesmo assim é possível que o comprador não consiga aprovar o financiamento junto à Caixa devido à renda”, lamenta.

Integrante da diretoria de Programas Habitacionais do Sindicato das Indústrias da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), Bruno Xavier Barcelos Costa confirma que o setor pode ser afetado negativamente. “Se tirar o produto da prateleira prejudica muito”, diz. Ele ressalta que o Sinduscon-MG não foi informado pelo banco da suspensão.

Ainda de acordo com Costa, a Caixa convocou a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) para uma reunião em 5 de julho. O primeiro assunto da pauta, segundo o representante do Sinduscon-MG, é, justamente, a linha pró-cotista.

Juros
Embora os juros de 8,61% da linha pró-cotista percam apenas para o Minha Casa, Minha Vida, o presidente da AMMMG afirma que eles deveriam ser mais baixos. O motivo é a garantia de pagamento do empréstimo. “Os imóveis têm garantia hipotecária. Ou seja, têm risco mínimo. Se o comprador atrasar o pagamento três meses, a Caixa pode pegar o bem de volta”, justifica.

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Redação
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