Adversários na estreia do Estadual, Guarani e Tricordiano encabeçam lista de dispensas dos clubes mineiros

A rotina de fama, dinheiro e holofotes comumente associada a jogadores de futebol não condiz muito bem com a realidade da “periferia da bola”. Segundo levantamento, mais de 100 jogadores ficaram sem emprego após o fim da primeira fase do Campeonato Mineiro. E a tendência é que esse número aumente nos próximos dias, quando os clubes fecharão seus planejamentos para o restante da temporada e definirão as listas de dispensas.

Tricordiano (22 atletas), Guarani (24) e Uberlândia (32) encabeçam a lista de clubes que mais dispensaram jogadores até aqui. Os 25 jogadores da Caldense foram liberados até a próxima semana – alguns devem permanecer, segundo a diretoria. O presidente do Villa Nova, Nélio Aurélio, afirmou à reportagem que pelo menos 18 jogadores não permanecerão no clube. Até agora, o Tupi encerrou o vínculo com quatro jogadores. Veja a lista completa no fim da reportagem.

Força de contrato

Os contratos firmados com os atletas no começo da temporada costumam durar apenas até o fim dos Estaduais. Isso porque os próprios clubes começam janeiro sem saber quais competições disputarão.

Reféns do sistema, os atletas precisam ir de time em time, de estado em estado, para tentar conseguir emprego como jogador de futebol. Mas, claro, não há espaço para todos.

Adnaldo (zagueiro ex-Tricordiano)

“Encerrei minha carreira no domingo, no jogo contra o Atlético. Fisicamente, eu me cuido bem. Mas estou com 35 anos, chega um momento que você quer um salário fixo, não dá pra ficar aventurando. Mesmo que seja pouco, mas cai todo mês na sua conta. É complicado. A gente não sabe pra onde que vai, o que vai fazer, a gente não juntou um capital suficiente pra vida toda. Tem amigos chamando pra projetos de escolinha, pra fazer bico de segurança. O que pintar eu estou agarrando.

No Tricordiano, joguei muitos jogos, fui o único com dois acessos: 2009 e 2015. Tive fratura em 2010, fiquei três meses só bebendo sopa no canudinho. Quase morri defendendo o time em campo. Fora de Três Corações, já passei por várias dificuldades. A maior é a de não receber. Você assina com um clube, os caras enrolam pra te pagar e você sai com uma mão na frente e outra atrás. No segundo semestre, você fica com aquela dúvida de ir ou não pra outro clube, porque a gente nunca sabe se vai receber. No vestiário, os outros jogadores procuram pensar positivo. Os caras têm um sonho, mas eu não procuro falar nada com eles, pra não preocupar ninguém. Chegou uma hora que optei por ficar aqui no segundo semestre. Aí ou eu participava dos campeonatos amadores ou trabalhava de servente com meu tio, de serralheiro com um amigo.”

Felipe Cordeiro (lateral ex-Guarani)

“Eu passei por isso ano passado. Me machuquei em 2014, quando eu jogava pelo Madureira (RJ) e eles não me deram a cirurgia do joelho, me largaram. Aí fui pro Novorizontino, que não tinha nenhuma obrigação de me dar a cirurgia, mas eles me passaram para o médico e consegui a cirurgia, que na época era 12 mil reais. Aí no segundo semestre, não consegui arrumar outro emprego. Com a ajuda dos meus pais e da minha esposa, eu pude ficar em casa me recuperando pra voltar este ano e jogar bem pelo Guarani, por mais que coletivamente o resultado não tenha sido bom.

Isso é muito difícil. Mesmo a gente sendo novo e tendo currículo bom, com base no Atlético e passagem pelo Tupi e pela Caldense, a gente está sujeito a isso. Você indo bem, tendo empresário muito bom, isso influencia. É importante demais ir bem no primeiro semestre pra conseguir vaga no segundo, porque é mais difícil quando acaba o Estadual. Tem muitos pais de família que perdem muito mercado.”

Rodolfo Mol (zagueiro ex-Uberlândia)

“Eu tenho contrato com o Uberlândia até o dia 30 de abril, mas já fui dispensado. Segunda-feira eu vou para Belo Horizonte, resolver para onde eu vou. Eu, graças a Deus, não vivi situações mais complicadas sobre ficar sem clube. Mas conheço gente que viveu isso de precisar ir pra um time e depois pra outro.

Um ex-companheiro meu já tinha feito três transferências no mesmo ano, sempre procurando lugar pra trabalhar. Aí ele saiu de um time para ir pra outro, mas não sabia que não podia fazer a quarta (transferência). Quando chegou no outro clube, avisaram a ele que ele já tinha feito as três no mesmo ano, aí ele ficou sem emprego. É um caso que parece engraçado, mas só quem passa por isso é quem sabe.”

Situação dos clubes

Nove dos 12 clubes que disputaram o Módulo I do Campeonato Mineiro foram procurados pela reportagem. Por terem maior estabilidade e um calendário mais bem definido, Cruzeiro, América e Atlético ficaram de fora da lista.

Caldense: classificada para a Série D, a Caldense foi eliminada da Copa do Brasil nesta semana. Os 25 atletas do grupo tiveram o contrato encerrado até quando a diretoria do clube definir com quem terá o vínculo renovado. A tendência é que haja dispensas definitivas antes da disputa do torneio nacional.

Boa Esporte: a lista de dispensas será divulgada na segunda-feira.

Tupi: Michel Douglas, Pirão, Fabrício Soares e Romário foram dispensados. A diretoria ainda negocia com outros atletas para definir o elenco da Série B.

URT: nas semifinais do Estadual, o clube definirá possíveis dispensas e reavaliará o elenco após a fase final do Mineiro.

Tombense:
 clube se prepara para a Série C. Como os atletas têm contrato longo, a diretoria deve emprestar os que não serão aproveitados.

Villa Nova: Com dificuldades financeiras, o Villa Nova – que tem o direito de disputar a Série D no segundo semestre – deve dispensar, em média, 18 atletas, segundo o presidente Nélio Aurélio.

Uberlândia: o ex-líder do Mineiro dispensou seus 32 jogadores.

Tricordiano: O Tricordiano uma vive situação curiosa: sétimo colocado do Estadual, o clube não disputará mais jogos oficiais no ano. No entanto, a diretoria deixou os 22 atletas dispensados sob aviso: caso URT, Villa Nova ou Caldense desistam da disputa da Série D, o time de Três Corações assume a vaga e os jogadores serão “recontratados”.

Guarani: 24 jogadores foram dispensados.

FONTESuperesportes
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Marcus Vinícius Gomes
Réporter Esportivo desde 2010, 30 anos, apaixonado por futebol, viajou Minas Gerais nas melhores coberturas esportivas para Rádios, TV e claro, se divertindo fazendo aquilo que gostava, que é estar à beira do gramado.

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