Pedófilos também precisam de tratamento, afirma especialista em reunião na ALMG

Especialista diz que as políticas sobre violência sexual contra crianças também devem ter atendimento aos agressores.

Foto: Ricardo Barbosa

A sexualidade é uma questão cultural e a forma como a criança é apresentada a esse universo vai sempre influenciar a vivência sexual na fase adulta. Foi sobre essas duas questões que o psicanalista Paulo Roberto Ceccarelli falou durante audiência pública que tratou da violência sexual de crianças e adolescentes. Ele foi o principal convidado da reunião realizada na manhã desta quarta-feira (18/5/16) pelas Comissões de Direitos Humanos e de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

Membro da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia da 4ª região e doutor em psicopatologia fundamental e psicanálise pela Universidade de Paris, Ceccarelli falou de casos acompanhados por ele para explicar certos pontos. Citou, por exemplo, um caso em que uma mãe espancou uma criança de 3 anos por ele ter tocado seus órgãos sexuais. A criança teria sido enviada ao hospital depois do espancamento. “Isso diz mais sobre a mãe do que sobre o filho”, avaliou e afirmou que essa repressão será determinante para a forma como a criança vai, futuramente, vivenciar sua sexualidade.

“A atividade sexual começa de forma precoce, mas a excitação que ela produz não coincide com a do adulto. Tocar nos órgãos é normal, mas como isso é recebido pelos adultos ao redor?”, questionou. A repressão, o incentivo, a culpa, tudo isso seria reflexo da moral familiar e chegaria de forma pesada à criança. Ele citou, então, o exemplo de uma mãe que teria procurado um centro de atendimento alegando que seu filho seria “tarado”. Mas o filho tinha apenas dois anos de idade. O atendimento teria percebido, então, que a criança foi fruto de um estupro e a mulher projetava na criança o medo dos impulsos sexuais do homem que a violentou.

Daí viriam as constatações de que muitos dos abusadores foram, em algum momento, vítimas da mesma violência no passado – ou de outras distorções sexuais. Assim, ele defende o tratamento dos agressores. “É preciso ressignificar a violência sexual, acabar com a ideia de que o pedófilo é um monstro. O que os agressores relatam, em geral, é um sofrimento enorme, mas uma dificuldade muito grande em lutar contra esses impulsos”, afirmou. Ele diz, então, que é preciso punir o responsável, não se deve retirar dele a culpa, mas que é preciso considerar sua história pregressa e tratá-lo.

Cultura é definidora de comportamentos sexuais

A influência da cultura nas manifestações da sexualidade também foram destacadas por Ceccarelli. Ele disse que realiza alguns trabalhos no Pará e, com frequência, visita tribos indígenas da região. Citou, então, que em algumas tradições a menstruação é compreendida como um sinal de que a natureza está pronta, assim muitas meninas de 12 anos se casam. Isso não poderia, segundo ele, ser considerado pedofilia, mesmo que o marido fosse mais velho, já que se trata de um contexto cultural diferenciado. “A moral em nossa sociedade determina como nossa sexualidade é vivida. Nascemos imersos nisso e aprendemos o que é normal e o que é desvio”, disse.

Por fim, o psicanalista disse que é preciso ter cuidado nas abordagens dos casos, já que há muita coisa envolvida. Citou exemplos em que um dos pais induz as crianças a denúncias e falou de fantasias infantis que podem criar quadros diferentes da realidade. Lembrou de um caso na França em que um juiz prendeu dezenas de pessoas em uma pequena cidade alegando estar desarticulando uma quadrilha internacional de pedofilia. Soube-se depois que aquilo não era verdade e que muitos dos depoimentos teriam sido induzidos pelo próprio juiz. Paulo Ceccarelli afirmou, então, que é essencial ter cautela na apuração dos casos e lembrou que, muitas vezes, submeter uma criança a um exame ginecológico diante de uma junta de médicos que tentam determinar se houve ou não estupro pode ser altamente traumático.

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Redação
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