Roupa suja deverá ser lavada! Reunião na CBF vai revelar nível de pressão sobre a comissão técnica.

Uma reunião nesta terça-feira na CBF vai avaliar o desempenho da seleção brasileira nos jogos contra Uruguai e Paraguai, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2018. Os dois empates por 2 a 2 e a queda para a sexta colocação na tabela – fora da zona de classificação ao Mundial – elevaram a pressão sobre Dunga aos níveis mais altos desde que ele voltou ao cargo, em 2014.

Alas políticas da CBF estão insatisfeitas com o trabalho do técnico e de sua comissão, encabeçada pelo coordenador de seleções Gilmar Rinaldi. Na reunião desta terça, roupa suja deverá ser lavada. Dunga voltou a ser muito questionado dentro e fora da entidade. É fato que seu time não apresenta um futebol digno do que se imagina ideal para uma seleção brasileira, mas também é verdade que nem tudo deveria recair sobre seus ombros.

Enquanto adversários de menos recursos técnicos melhoraram em relação ao ano passado, destaque para Colômbia, Uruguai e Argentina, o Brasil estagnou. Com exceção a minutos de encantamento no primeiro tempo diante da Celeste, ficaram evidentes a falta de repertório, o mau momento de jogadores e uma incompreensão tática daquilo que Dunga imagina para a equipe.

Pode-se – e deve-se – cobrar de Dunga um desempenho melhor da Seleção, com todas as dificuldades levadas em conta. A ideia de jogo deveria ser mais bem desenvolvida. Independentemente de sistemas táticos ou preferências pessoais, os jogadores das grandes equipes do futebol mundial atual primam por características que faltam em posições-chave: transição rápida, velocidade de movimentos, aproximação, capacidade de tabelas, recomposição.

Desempenho da Seleção será avaliado nesta terça-feira (Foto: Lucas Figueiredo)
Desempenho da Seleção será avaliado nesta terça-feira (Foto: Lucas Figueiredo)

Para encontrar uma equipe capaz de desenvolver tal método, as escolhas devem ser melhores. Por mais que sejam difíceis – e são –, jogadores como Thiago Silva e Marcelo deveriam ser considerados. Os volantes atuais funcionam mal. Ainda falta conexão entre os setores.

Por outro lado, Dunga tem razão quando reclama do pouco tempo: foram 10 dias reunidos após um período de 128 dias sem jogos. É um problema que todas as seleções enfrentam. É mais fácil superá-lo em trabalhos de longo prazo, casos de Joachim Löw e Oscar Tabárez (ambos desde 2006 na Alemanha e no Uruguai, respectivamente), e Vicente Del Bosque (desde 2008 na Espanha). Desde o fim da Copa de 2006, o Brasil teve quatro trocas no comando.

Seria ainda mais fácil se o futebol brasileiro não tivesse perdido sua identidade. A cara da seleção alemã, por exemplo, é um compilado do que se aprende na base do futebol daquele país, e isso se repete na Itália, no Uruguai, na Holanda, na Argentina, e assim por diante. A seleção brasileira é a torre de babel composta por uma formação absolutamente heterogênea, sem conceitos, ideias ou quaisquer modelos definidos.

Os clubes revelam com intenção de vender e moldam garotos para agradar ao mercado europeu. Um número relevante de jogadores que servem à Seleção terminou sua formação fora do país. Um na Ucrânia, outro na Alemanha, mais um em Portugal… E o técnico, quem quer que seja, tem de reuni-los e dar uma identidade em pouquíssimo tempo. Dunga, é verdade, preocupa-se mais com o próximo resultado do que com um projeto que devolva essa identidade. A CBF, quando o contratou, em agosto de 2014, sabia disso muito bem. Não pode reclamar.

O Brasil era o país do futebol. Agora é uma espécie de ilha do futebol, deslocada da realidade.

O problema de Dunga é que o argumento de poucos treinos fica fragilizado pelo histórico da atual equipe. Foi justamente na Copa América do ano passado, quando ele reuniu pela primeira vez os jogadores por mais tempo, que a coisa começou a degringolar. Neymar cometeu abusos, David Luiz perdeu a posição, Thiago Silva perdeu a confiança da comissão… E o Brasil perdeu muito. Até então, atuações convincentes contra rivais difíceis, como Colômbia, Argentina e França, passavam a esperança de um futuro mais próspero.

Parece haver entre Dunga e seus atletas uma incompatibilidade de gerações. O técnico não é capaz de entender jovens que saem diretamente de uma derrota para as redes sociais. Os jogadores, por sua vez, não conseguem compreender os anseios de um ex-jogador que foi grande não apenas pelo talento, mas por sua personalidade e pelo ódio ao fracasso. Neymar, por exemplo, recebeu do treinador a faixa de capitão e elogios rasgados, que poderiam fazer dele a referência de uma era. Hoje, a relação entre eles não é das melhores.

Ao fazer cobranças, a CBF também deverá se lembrar que, na Copa América do Chile, o presidente não estava presente porque tinha receio de sair do país, o chefe de delegação só aparecia para jantar com autoridades e o diretor mais próximo da equipe de futebol era o de marketing. Dunga merece ser cobrado, mas uma autocrítica cairia muito bem aos engravatados.

FONTEgloboEporte.com
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Marcus Vinícius Gomes
Réporter Esportivo desde 2010, 30 anos, apaixonado por futebol, viajou Minas Gerais nas melhores coberturas esportivas para Rádios, TV e claro, se divertindo fazendo aquilo que gostava, que é estar à beira do gramado.

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