Usiminas deve receber injeção de capital de R$ 1 bilhão

Mesmo sem acordo entre os acionistas, conselho de administração da siderúrgica decide levar para aprovação em assembleia proposta de injeção de recursos para aliviar dívidas

A Usiminas caminha para receber uma injeção de capital de R$ 1 bilhão, por decisão da maioria dos conselheiros da siderúrgica, que se reuniram ontem para tentar evitar iminente pedido de recuperação judicial da companhia mineira. Sem acordo entre os principais acionistas, o grupo japonês Nippon Steel e a empresa ítalo-argentina Ternium/Techint, a proposta de capitalização vencedora na reunião extraordinária do Conselho de Administração era defendida pela Nippon, que teve o apoio de dois conselheiros da Caixa dos Empregados da Usiminas e de dois representantes dos minoritários, completando sete votos a favor em 10, segundo fontes próximas da empresa.

Os três conselheiros representantes da Ternium defendiam uma capitalização limitada, pouco superior a R$ 560 milhões. A proposta de capitalização de R$ 1 bilhão, em ações ordinárias, será levada para aprovação em Assembleia Geral Extraordinária de acionistas, dentro de 15 dias. Além do aporte, que a Nippon está disposta a fazer sozinha, se necessário, foi também aprovada pelo conselho a emissão de 50 milhões de ações preferenciais da Usiminas.

Procuradas pelo EM, a Nippon e a Ternium não se pronunciaram sobre o resultado da reunião do Conselho de Administração da Usiminas até o fechamento desta edição. Fonte próxima da siderúrgica informou que a despeito do clima de discussão e votação tenso, ontem, entre os acionistas, a decisão mostrou o entendimento da grave situação de caixa da companhia. “Os sócios que aprovaram a capitalização de R$ 1 bilhão acreditam que com ela e as possibilidades abertas, o caixa da companhia ficará equilibrado até 2018”, disse.

Com a operação de aumento de capital, que poderá ingressar na companhia dentro de dois a três meses, ainda segundo fonte ouvida pelo EM, a Usiminas terá condições de atuar em outras duas frentes: a liberação de parcela entre R$ 600 milhões e R$ 700 milhões do caixa da Mineração Usiminas, empresa na qual tem como sócio a japonesa Sumitomo Corporation e acertar uma renegociação de sua dívida, estimada em quase R$ 8 bilhões, com os principais bancos credores.

De acordo com a diretoria da empresa, em rodada de conversas com as principais instituições credoras, teria sido obtido o compromisso de que eles dariam tempo à empresa, sem forçar uma situação de falência, mediante a capitalização pelos sócios. A companhia tem débitos de curto prazo no valor de R$ 1,920 bilhão, com vencimento em dezembro.

Os principais credores são Itaú, Santander, Bradesco, Banco do Brasil, BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e o banco japonês de fomento JBIC (Japan Bank for International Cooperation). Uma outra frente de reequilíbrio financeiro da Usiminas passa pela anunciada venda de ativos, em especial Usiminas Mecânica, empresa especializada no segmento de bens de capital (máquinas e equipamentos).

Desacordo Fonte ligada à Ternium disse que a proposta de capitalização defendida pela Nippon e recomendada na reunião de ontem ainda estaria condicionada à rolagem das dívidas da Usiminas e carências eventuais de pagamento negociadas com os bancos. O sócio ítalo-argentino já havia enviado nota ao EM em que informava concordar com a operação de capitalização, no entanto “um aporte limitado de capital, a fim de evitar diluições desnecessárias”.

A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) já tem tentado derrubar a proposta de capitalização na Justiça, por discordar da diluição de participações acionárias que ela poderá provocar. Isso, na medida em que força os demais acionistas a acompanharem o aporte pelos sócios controladores.

Proposição feita pela diretoria da Usiminas avalia em R$ 4 bilhões as medidas para reerguer a siderúrgica. Ainda segundo fonte ligada à empresa ouvida pelo EM, o aumento de capital proposto pela Nippon implica aporte entre 16% e 17% do capital, respeitando-se as regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para que qualquer acionista detentor de papéis preferenciais (PN) ou ordinários (ON) exerça seus direitos na operação.

Mendes em recuperação

A Justiça mineira deferiu o pedido de recuperação judicial da Mendes Junior Trading e Engenharia S/A, que requereu o benefício legal para ganhar tempo e equacionar uma dívida de R$ 253 milhões junto a fornecedores e também relativa a débitos trabalhistas. A juíza Patrícia Santos Firmo, da 1ª Vara Empresarial de Belo Horizonte, acatou os argumentos da construtora, centrados no duro impacto sobre o caixa da empresa do desaquecimento da economia e da demanda de obras de infraestrutura, além dos efeitos da inflação alta sobre os insumos da construção pesada. A advogada Maria Celeste Morais Guimarães foi nomeada administradora judicial no processo da recuperação da companhia.

Assim que o despacho da juíza for publicado, a Mendes terá o benefício de suspensão por 180 dias de todas as ações e execuções requeridas contra ela. O prazo, a partir da data de publicação, para apresentar o seu plano de recuperação é de 60 dias. O advogado da construtora, José Murilo Procópio de Carvalho, informou, ontem, que a medida permite a continuidade das atividades da empresa e a manutenção de cerca de 3,5 mil empregos. “Ela terá, agora, fôlego para equacionar os problemas de caixa”, afirmou.

Considerada uma das 10 maiores companhias do setor da construção pesada no país, a Mendes é investigada na Operação Lava-Jato, que apura desvios de dinheiro em obras da Petrobras e seu ex- vice-presidente Sérgio Cunha Mendes cumpre pena. No despacho que deferiu, datado de quinta-feira, a juíza Patrícia Firmo destaca que o instituto da recuperação judicial “destina-se a viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira do devedor, a fim de permitir a manutenção da fonte produtora, do emprego dos trabalhadores e dos interesses dos credores, promovendo, assim, a preservação da empresa, sua função social e o estímulo à atividade econômica”.

A construtora foi criada em 1953, formando um grupo com atuação em várias áreas da construção pesada e que promoveu uma reorganização de sua estrutura em 1998. Desde então, a Mendes Junior Trading e Engenharia S/A passou a concentrar as atividades da empresa nos segmentos de infraestrutura (obras urbana, de hidrelétricas, portos, aeroportos e construção viária); óleo e gás (refinarias, dutos, termelétricas e plataformas de petróleo e gás) e industrial (projetos de siderurgia, mineração e complexos comerciais inteligentes).

Impacto da crise No pedido de recuperação judicial, a Mendes Junior diz que o caixa da companhia ficou comprometido com a deterioração dos indicadores da indústria da construção no Brasil e o corte dos investimentos públicos em projetos de infraestrutura, que se juntaram à inadimplência de clientes e à incapacidade de seus fornecedores de entregar os serviços contratados dentro dos prazos estipulados. A empresa informou ter créditos a receber de mais de R$ 400 milhões, principalmente da União e dos estados. Por fim, a companhia destacou ainda que na construção pesada e no setor de óleo e gás, a queda dos preços do petróleo, neste ano, afetou os cronogramas de pagamento de obras. Esses problemas teriam anulado os esforços feitos pela construtora para reduzir custos e equilibrar o caixa.

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Redação
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